segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Bibi, uma vida em musical"

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Inesquecível encontro entre palco e plateia



Lionel Fischer



"A história familiar, profissional e amorosa da artista se enredam. A formação em música, dança e línguas estrangeiras foi estimulada pela mãe Aida Izquierdo, bailarina espanhola. A estreia profissional no teatro, aos 19 anos, foi pela mão do pai, o ator Procópio Ferreira, em papel escrito por ele para a filha. Assim, o musical percorre todas as fases da vida de Bibi, da escolha do seu nome, sua preparação para os palcos, espetáculos musicais inesquecíveis como Gota d'Água, My Fair Lady, Alô Dolly e Piaf, a vida de uma estrela da canção, seus casamentos, o nascimento da filha única, Tina Ferreira, as viagens para Portugal e Inglaterra a trabalho, a homenagem da escola de samba Viradouro até sua chegada a um teatro da Broadway, aos 90 anos".

Extraído do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima explicita o enredo de "Bibi, uma vida em musical", em cartaz no Teatro Oi Casa Grande. Artur Xexéu e Luanna Guimarães respondem pelo texto, com Tadeu Aguiar assinando a direção. No elenco, Amanda Acosta, Analu Pimenta, André Luiz Odin, Bel Lima, Caio Giovani, Carlos Darzé, Chris Penna, Fernanda Gabriela, Flavia Santana, Guilherme Logullo, João Telles, Julie Duarte, Leandro Melo, Leo Bahia, Leonam Moraes, Luísa Vianna, Moira Osório, Rosana Penna e Simone Centurione.

Após digitar os dois parágrafos acima, meramente introdutórios, devo confessar que estou há uns 15 minutos sem saber por onde começar a análise deste espetáculo, que me divertiu e emocionou de forma tão arrebatadora que não hesito em inclui-lo entre os melhores que já assisti ao longo dos últimos 28 anos de exercício da crítica teatral. Então, inicio por una assertiva que talvez pareça um tanto abstrata, mas que para mim é absolutamente concreta: o presente espetáculo certamente contou com a irrestrita benção dos sempre caprichosos Deuses do Teatro. Em caso contrário, o espetáculo poderia até ser ótimo, mas ainda assim exibir pequenas ressalvas, ainda que insignificantes em face do todo. Mas aqui, não: tudo funciona maravilhosamente, o que talvez seja um prenúncio de que teremos uma temporada esplendorosa.

O texto de Artur Xexéu e Luanna Guimarães consegue, sem jamais ser didático, traçar um triplo perfil: da homenageada, da história política do país e do teatro nacional ao longo do século XX. Exibindo ótimos diálogos, personagens muito bem estruturados e mesclando, sempre com inegável eficiência, diversificados climas emocionais, "Bibi" proporciona um inesquecível encontro entre palco e plateia, cabendo também ressaltar a ótima ideia da trama  ser conduzida por três narradores - uma cigana meio confusa e um tanto malcriada, um mestre de cerimônia simpático e malicioso, e Vó Irma, senhora portadora de hilária propensão de contestar seus parceiros. 

Com relação ao espetáculo, este é absolutamente deslumbrante. Contando com as preciosas colaborações de Thereza Tinoco (música original e mais quatro canções), Tony Lucchesi (direção musical e arranjos), Sueli Guerra (coreografia), Natalia Lana (cenário), Ney Madeira e Dani Vidal (figurino), Rogério Wiltgen (desenho de luz), Gabriel D'Ângelo (desenho de som) e Ulysses Rabelo (visagismo), Tadeu Aguiar impõe à cena uma dinâmica plena de humor e humanidade, cabendo também ressaltar sua sensibilidade no tocante às passagens mais dramáticas, que jamais enveredam para a pieguice. Afora isto, ao encenador cabe o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações de todo o elenco, a começar pela de Amanda Acosta.

Neste particular, cabe ressaltar que a atriz não imita Bibi Ferreira, mas se apropria de algumas de suas peculiaridades e a elas agrega algumas suas, daí resultando uma personagem que certamente é Bibi, mas também contém algo de Amanda Acosta - se tudo se resumisse a uma cópia, o resultado haveria de ser bem menos interessante, posto que nenhuma cópia, por mais esmerada que seja, consegue se equiparar ao original. Possuidora de belíssima voz, enorme carisma, fortíssima presença cênica e visceral capacidade de entrega, Amanda Acosta se insere entre as melhores atrizes de musicais de toda a história do teatro brasileiro.

No tocante aos demais atores, cujos desempenhos já disse que considero excelentes, ainda assim faço questão de mencionar a irretocável performance de Chris Penna na pele de Procópio Ferreira - a exemplo de Amanda Acosta, o ator também não se limita a copiar o modelo, mas a ele também agrega certamente algo que lhe é inerente.

Finalmente, um aplauso entusiasmado para os músicos, cuja excelência e virtuosismo se faz presente nas 33 canções que compõem o espetáculo, cinco delas compostas por Thereza Tinoco -  Alexandre Queiroz (regência e piano), Miguel Schönmann (teclado, violão e cavaquinho), Léo Bandeira (bateria), David Nascimento (baixo), Thais Ferreira (violoncelo), Luiz Felipe Ferreira (violino), Everson Moraes (trombone) e Gilberto Pereira (flauta, clarinete, sax alto e sax tenor).

BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL - Texto de Artur Xexéu e Luanna Guimarães. Direção de Tadeu Aguiar. Com Amanda Acosta, Chris Penna e grande elenco. Teatro Oi Casa Grande. Quinta e sexta, 20h30. Sábado às 17 e 21h. Domingo, 19h.  






quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"O Princípio de Arquimedes"

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A relatividade das aparências




Lionel Fischer



Toda escola de natação tem por objetivo óbvio ensinar os alunos a nadar. Mas tal objetivo, para se consumar plenamente, pressupõe  um caminho, posto que a confiança só advém após a superação do medo inicial. Algumas crianças são mais atiradas, e com elas o processo é mais simples. Mas outras demandam, por infinitas razões, uma atenção especial. E em que consiste essa atenção especial?  Mais paciência por parte dos professores? Talvez uma relação mais próxima e carinhosa, capaz de relaxar o aluno a ponto de fazê-lo, finalmente, acreditar que pode abandonar as boinhas protetoras? Enfim...são muitas as possibilidades.

No presente caso, um dos professores da escola de natação infantil dá um abraço e um beijo em um aluno, em princípio visando apenas encorajá-lo. Mas o fato é testemunhado por uma garotinha, que relata o ocorrido à direção da escola. E logo vários pais ficam sabendo, inclusive o do aluno em questão. A partir daí, tudo se converte em uma espécie de tribunal: teria ou não ocorrido assédio por parte do professor?

De autoria do catalão Josep Maria Miró, "O Princípio de Arquimedes", após cumprir temporada no Sesc Tijuca, está novamente em cartaz, agora no Centro Cultural dos Correios. Terceira montagem da Lunática Companhia de Teatro, a obra tem direção e tradução assinadas por Daniel Dias da Silva, estando o elenco formado por Helena Varvaqui (atriz convidada), Cirillo Luna, Gustavo Wabner e Sávio Moll.

Antes de mais nada, talvez seja interessante entender o porquê do título da peça. Matemático, físico, engenheiro, inventor e astrônomo grego, Arquimedes de Siracusa (287 a.c / 212 a.C) formulou o seguinte princípio, conhecido como "Princípio de Arquimedes": 

Todo corpo mergulhado total ou parcialmente num fluido (líquido ou gás) recebe por parte deste fluido uma força vertical, de baixo para cima (conhecida como Força de Empuxo), de intensidade igual ao peso do volume de fluido deslocado pelo corpo.

Isto significa, por exemplo, que se não consigo segurar no colo alguém que pese 80 quilos, uma vez dentro de uma piscina, em cujo fundo meus pés estejam plantados, eu conseguirei fazê-lo. A pessoa continua com seus 80 quilos, mas parecerá muito mais leve, graças ao mencionado Princípio de Arquimedes. E deste aquático exemplo talvez se possa concluir que o autor objetivou discutir a relatividade das aparências. 

Ou seja: o professor em questão pode efetivamente ter abusado do aluno, como também pode ter sido apenas mais carinhoso com ele do que com outros. E aí? Como se chegar a uma conclusão justa sobre o ocorrido, sobretudo se levarmos em conta que esse professor, além de experiente, jamais sofreu uma acusação como essa? É claro que seu ilibado passado não tem o poder de absolvê-lo a priori, pois isso equivaleria a não condenar alguém por um determinado delito pelo simples fato de não tê-lo cometido antes. 

E cabe também mencionar uma outra passagem, que nada tem a ver com o aluno, mas que reforça minha crença de que o autor efetivamente centrou seu foco na relatividade das aparências. Em dado momento, e já em um estado de completa exasperação, o professor acusado tira seu roupão e fica completamente nu diante da diretora. Pois bem: e se entrasse alguém nesse exato instante? Será que a diretora conseguiria provar que foi surpreendida pela inusitada atitude do professor ou seria acusada de tê-la provocado?
Enfim...prossigamos.

Não consegui entender as razões que levaram o autor a criar uma estrutura narrativa que, a todo momento, é interrompida e retomada do ponto onde se deu a interrupção, para então serem acrescidos mais alguns dados. Em meu entendimento, isso só contribui para ralentar a evolução da trama e a materialização dos conflitos. No que se refere à contextualização da peça, nada mais oportuno do que se discutir, nos dias atuais, a questão do assédio, em suas aparentemente infinitas e abjetas vertentes.

Outra questão que me soou estranha diz respeito ao fato de toda a peça se passar no vestiário masculino da escola. A meu ver, se a diretora de uma escola, seja ela de natação ou não, recebe uma denúncia contra um professor, a primeira e única providência a tomar seria a de chamá-lo à sua sala para prestar os devidos esclarecimentos, e não, como acontece na peça, ir diversas vezes ao vestiário quase que suplicando ao acusado que admita sua culpa ou demonstre sua inocência - se pensarmos em termos estritamente pedagógicos, e levando-se em conta que já existe uma repercussão negativa entre os pais dos alunos, o normal seria a diretora suspender temporariamente o tal professor até o total esclarecimento do fato.  

Seja como for, tudo se passa no vestiário e é nele que os embates são travados. E o tal vestiário é eventualmente modificado, como a sugerir que toda questão pode ser observada de variados pontos de vista - não sei se tais alterações são indicadas pelo autor ou fruto de uma opção do diretor. Seja como for, em meu entendimento isso não altera nada, ou seja, a validade das discussões propostas não se torna mais ou menos relevante se as extremidades do cenário são várias vezes invertidas.

Ressalvas feitas, é inegável que o texto de Josep Maria Miró levanta discussões pertinentes, exibe diálogos fluentes e contém bons personagens. E a encenação de Daniel Dias da Silva merece ser elogiada pela eficiência de suas marcações e sobretudo por sua precisão no tocante aos tempos rítmicos - em que pese as  desnecessárias idas e voltas no tempo, é inegável que o encenador consegue fazer com que a tensão aumente progressivamente.

Com relação ao elenco, Helena Varvaqui encarna Ana, a diretora da escola, personagem um tanto ingrata, posto que quase sempre aprisionada em uma mesma e suplicante chave, como já mencionado. A exceção fica por conta do emocionante momento em que recorda a perda do filho de 16 anos, que provavelmente se suicidou - nessa breve passagem, Helena Varvaqui demonstra as razões que me levam a considerá-la uma das melhores atrizes do país. Na pele de Rubens, o professor acusado, Cirillo Luna exibe atuação segura e convincente, valorizando com a mesma eficiência tanto os momentos de indignação do personagem quanto aqueles em que ele se mostra perplexo e fragilizado. 

Gustavo Wabner vive Heitor, o outro professor de natação, cuja missão básica consiste em alertar Rubens para sutilezas por ele não percebidas, ou por ele desprezadas, relativas ao que está acontecendo e sobretudo ao que pode vir a acontecer. Dentro das possibilidades do papel, o ator exibe seguro e digno desempenho. Vivendo David, o pai do garoto supostamente molestado, Sávio Moll impõe ao personagem uma indignação e revolta um tanto comedidas, bem mais cerebrais do que emotivas, quando me parece que um pai, em tal contexto, deveria exigir explicações com uma urgência semelhante à de alguém capaz de ir às últimas conseqüências na defesa de um filho.

Na equipe técnica, Daniel Dias da Silva responde por excelente tradução, sendo eficientes as contribuições de Cláudio Bittencourt (cenografia), Victor Guedes (figurinos), Walace Furtado e Vilmar Olos (iluminação) e Sueli Guerra (direção de movimento).

O PRINCÍPIO DE ARQUIMEDES - Texto de Josep Maria Miró. Direção de Daniel Dias da Silva. Com Helena Varvaqui, Cirillo Luna, Gustavo Wabner e Sávio Moll. Centro Cultural dos Correios. Quinta a domingo, 19h. 



    









sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Prêmio Cesgranrio de Teatro 2017
5ª Edição / Indicados do 2º semestre

Figurino

Marcelo Olinto - "Zeca Pagodinho"
Marcelo Marques e Carlos Petit - "Guanabara canibal"
Mauro Leite - "Estes fantasmas"

Cenografia

Gringo Cardia - "Zeca Pagodinho"
Marcelo Marques e Marco André Nunes - "Guanabara canibal"
Lídia Kosovski - "Tripas"

Iluminação

Bernardo Lorga - "Festa de aniversário"
Renato Machado - "Guanabara canibal"
Paulo Cesar Medeiros - "O jornal"

Ator

Mário Borges - "Doce pássaro da juventude"
Michel Blois - "Euforia"
Ricardo Kosovski - "Tripas"

Ator em Teatro Musical

Gustavo Gasparani - "Zeca Pagadinho"
Hugo Bonemer - "Ayrton Senna"
Édio Nunes - "Kid Morengueira"

Categoria Especial

Cia. dos Atores e Ivan Sugahara - pela manutenção da Sede das Cias.
Roberto Guimarães - por sua atuação como programador do Teatro Oi Futuro
Renato Vieira - coreografia e direção de movimento de "Zeca Pagodinho"

Atriz

Guida Viana - "Agosto"
Isabel Cavalcanti - "A sala laranja"
Andréa Dantas - "Festa de aniversário"

Atriz em Teatro Musical

Juliana Bodini - "Dançando no escuro"
Soraya Ravenle - "Puro Ney"

Direção

Gustavo Gasparani - "Zeca Pagodinho"
Pedro Kosovski - "Tripas"
Marco André Nunes - "Guanabara canibal"

Direção Musical

Marcelo Alonso Neves - "Dançando no escuro"
João Callado - "Zeca Pagodinho"

Texto Nacional Inédito

"Euforia" - Julia Spadaccini
"Guanabara canibal" - Pedro Kosovski
"Zeca Pagodinho - Gustavo Gasparani

Espetáculo

"O jornal"
"Tripas"
"Zeca Pagodinho"

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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"A cozinha"

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Segredo revelado gera explosivos conflitos



Lionel Fischer



Estamos todos, atores e espectadores (20 por sessão), em uma cozinha real, situada em uma casa real. Sentada à mesa, Letícia observa as idas e vindas de Miguel, que veste um avental. Tudo leva a crer que ele almeja ultimar os preparativos para uma refeição. Finalmente, começa a descascar uma cebola. O silêncio é rompido, e ficamos sabendo que Letícia e Miguel são namorados, que o namoro não vai bem e que Miguel aguarda a chegada de Rodrigo, seu amigo de infância, que finalmente surge com a namorada Carla, que já se considera meio casada. 

Miguel desconhecia esse namoro, da mesma forma que Rodrigo ignorava a relação do amigo. A partir daí, conversas banais são inicialmente trocadas entre os quatro. No entanto, o clima vai aos poucos se tornando menos formal, o que leva Rodrigo a empreender inúmeras tentativas de ir embora. Mas jamais o deixam concretizar seu desejo, cuja motivação, até este momento, não fica clara. A tensão aumenta progressivamente e acaba por enveredar para um contexto de extrema violência, após vir à tona uma surpreendente revelação.    

Eis, em resumo, o enredo de "A cozinha", de autoria de Felipe Haiut, em cartaz no Cazebre, em Humaitá. Gunnar Borges assina a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Felipe Haiut (Miguel), Julia Stockler (Letícia), Saulo Arcoverde (Rodrigo) e Catharina Caiado (Carla).

Em termos de contexto e estrutura, "A cozinha" exibe algum parentesco com muitas obras, sendo a mais notável "Quem tem medo de Virgínia Woolf?", de Edward Albee, que virou filme de enorme sucesso com direção de Mike Nichols e elenco formado por Elizabeth Taylor, Richard Burtom, George Segal e Sandy Danis. 

Embora na peça de Albee os personagens sejam mais velhos, estejam embriagados e os principais conflitos sejam explicitados a partir do momento em que um dos personagens propõe uma espécie de "jogo da verdade", com o intuito de induzir os demais a revelarem detalhes de natureza íntima, aqui não é o excesso de bebida que deflagra nada, mas a insistência de Miguel em relembrar sua amizade de infância com Rodrigo. Mas nada sugere que as relações entre os quatro personagens irá descambar para um contexto de extrema violência, como já mencionado.

Neste sentido, o texto de Felipe Haiut exibe muitos méritos, pois a tensão vai sendo progressivamente acentuada sem jamais parecer  gratuita. Afora isto, cabe registrar que o autor criou personagens muito bem estruturados, diálogos fluentes e abordou, com extrema pertinência e sensibilidade, algumas questões relativas aos afetos e à necessidade que às vezes sentimos de ocultá-los, ainda que visceralmente verdadeiros.  

Com relação ao espetáculo, Gunnar Borges impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, para tanto valendo-se de marcações criativas e expressivas, e explorando com sensibilidade a proximidade dos atores com a plateia, não raro gerando uma sensação propositadamente sufocante e algo claustrofóbica. Em certa medida, tudo acontece como se os conflitos ficcionais acabassem sendo também os nossos - e não deixam de ser, ao menos alguns.

No tocante ao elenco, Felipe Haiut, Catharina Caiado, Julia Stockler e Saulo Arcoverde exibem performances irretocáveis, cabendo registrar a notável capacidade de entrega do conjunto e a ótima contracena que evidenciam, fato só passível de acontecer quanto a confiança é mútua e todos acreditam totalmente na validade do projeto em que estão inseridos. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo. 

Com relação à equipe técnica, suponho que os figurinos sejam de autoria dos integrantes do projeto, estando em perfeita sintonia com as personalidades retratadas. Gabriel Prieto ilumina a cena com discrição e sensibilidade. 

A COZINHA - Texto de Felipe Haiut. Direção de Gunnar Borges. Com Felipe Haiut, Catharina Caiado, Julia Stockler e Saulo Arcoverde. Em cartaz no Cazebre. Domingo e segundas, 20h.




sábado, 18 de novembro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Carolina Maria de Jesus, Diário de Bitita"



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Belo e inesquecível encontro entre palco e plateia



Lionel Fischer



"Em cena, Carolina cata papel nas ruas de São Paulo para sustentar seus três filhos. Os objetos que vai encontrando pelo caminho a remetem aos acontecimentos marcantes de sua vida: a alfabetização, o primeiro contato com os livros, os sonhos da meninice, as festas populares, a enfermidade que a obrigou a mendigar, a prisão injusta, o trabalho na roça, o deboche dos meninos, a religiosidade, os laços afetivos, a mãe lavadeira, o pai ausente, o avô descendente de escravos, as madrinhas".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Carolina Maria de Jesus, Diário de Bitita", adaptação das obras "Quarto de despejo" e "Diário de Bitita", da escritora mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1877). Após cumprir temporada no Teatro Dulcina, a montagem agora pode ser assistida na Sala Municipal Baden Powell. Ramon Botelho responde pela adaptação e direção artística, estando a interpretação a cargo de Andréia Ribeiro.

Dentre as muitas desgraças que podem acometer um ser humano, uma das mais atrozes é nascer no Brasil, ser mulher, pobre e negra. Que destino é reservado a alguém que reúna tais predicados? De uma maneira geral, a prostituição e/ou o envolvimento com drogas. Mas é claro que, embora o preconceito e o racismo continuem presentes em nossa sociedade, muitas mulheres negras e que nasceram pobres conseguiram superar as mencionadas barreiras, e materializar aspirações em princípio só destinadas às que nasceram brancas e não conheceram a pobreza. 

No entanto, existem casos singulares, como o de Carolina Maria de Jesus. Embora tenha nascido negra e pobre, não se prostituiu e tampouco se envolveu com drogas, mas também jamais conseguiu escapar totalmente do enorme contingente de pessoas que da vida só conhecem o seu lado mais amargo. Catou papel pelas ruas de São Paulo para se sustentar e aos três filhos. E incontáveis vezes passou fome. No entanto, quanto isso acontecia, tomava a seguinte decisão: "Quando não tenho o que comer, em vez de xingar ou pensar na morte, eu escrevo". 

A escrita, portanto, foi o antídoto encontrado por Carolina para combater o próprio desespero. E graças a isso, e à providencial ajuda do jornalista Audálio Dantas, que a descobriu em 1958, dois anos depois Carolina viu publicado seu primeiro livro, "Quarto de despejo" (no original, "Quarto de despejo: diário de uma favelada""), publicado em vários idiomas e que a tornou respeitada por escritores e poetas como Clarice Lispector e Carlos Drumond de Andrade. No entanto, e por um desses insondáveis mistérios que parecem só se materializar em nosso país, continuou pobre. Não mais miserável, mas ainda assim, pobre. Mas vamos ao espetáculo, pois tais digressões já me soam um tanto longas...

Ramon Botelho realizou um impecável trabalho de adaptação das obras mencionadas no segundo parágrafo e cujo principal mérito é o de refazer, de forma densa e poética, a trajetória da personagem à medida que ela manipula os objetos que encontrou nas ruas. Ou seja: não estamos diante de alguém que simplesmente nos conta sua história, e sim de alguém cuja memória é ativada por aquilo que constitui seu amargo presente. Sem dúvida, uma opção maravilhosa, plena de teatralidade. E esta também se faz presente na dinâmica cênica, impregnada de uma mescla constante de secura e lirismo, e eventualmente de saborosas passagens em que o humor predomina.

Com relação à performance de Andréia Ribeiro, esta se insere entre as mais expressivas da atual temporada. Exibindo irrepreensível domínio vocal e corporal, grande carisma, forte presença cênica e  total capacidade de entrega à personagem que interpreta, a atriz valoriza ao máximo todas as nuances contidas no texto, assim promovendo um belo e inesquecível encontro entre quem faz e quem assiste. 

Na equipe técnica, Paulo Cesar Medeiros ilumina a cena com sua habitual sensibilidade, reforçando de forma decisiva todos os climas emocionais em jogo. A mesma sensibilidade se faz presente nas colaborações de Marco Lyrio (trilha original), Wagner Louza (figurinos), Sinhá Recicla (adereços), Sidnei Oliveira (visagismo) e Ramon Botelho (cenografia).

CAROLINA MARIA DE JESUS - DIÁRIO DE BITITA - Texto de Maria Carolina de Jesus. Adaptação e direção de Ramon Botelho. Com Andréia Ribeiro. Sala Municipal Baden Powel. Quinta e sexta, 20h.





quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Caríssimos,

O Fórum de Psicanálise e Cinema  finaliza suas apresentações de 2017 com o filme dirigido pelo  espanhol Cesc Gay: TRUMAN (2015, 108 min.), vencedor de variados prêmio Goya, o Oscar da Espanha, tendo no elenco Javier Cámara, um dos atores favorito de Almodóvar,  e o imperdível Ricardo Darín, ambos premiados pelo desempenho em diversos festivais europeus. Com uma temática delicada, aborda o reencontro dois amigos de infância após de muitos anos,lembram os velhos tempos e sabem ser o último adeus, pois o ator argentino radicado em Madrid, lutava contra um câncer. Sem perspectiva de cura, ele decide interromper o tratamento e aguardar a morte. Uma história que  ganha força diante das grandes atuações dos dois.

No dia 24 de novembro, última sexta-feira do mês, às 18 h, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, analisaremos e discutiremos a película em seus múltiplos aspectos e prismas diversos. Como sempre, aguardamos todos vocês para mais um debate e contamos com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico. Retornaremos em março de 2018 com novos títulos que serão previamente divulgados.

Um grande abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.

SERVIÇO:
DATA: 24 DE NOVEMBRO DE 2017.
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com

NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM. 

HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. EM 2016, A SPRJ, CELEBROU OS 10 ANOS DO FÓRUM E A PARCERIA COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.





Teatro/CRÍTICA

"L, O Musical"

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Que se abram todos os armários



Lionel Fischer



"Ester Rios é uma renomada autora de novelas e está esfuziante com o sucesso do primeiro folhetim a ter um triângulo amoroso formado por mulheres. Ela divide esse cotidiano profissional e afetivo com amigas, sempre se lembrando daquela que foi seu grande amor, Rute. Revelações e a chegada de notícias inesperadas mudam o destino daquelas mulheres".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "L, O Musical", que após cumprir temporada em Brasília está em cartaz no Teatro I do CCBB. Mais recente realização da Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada, a montagem tem direção geral e dramaturgia assinadas por Sérgio Maggio, esta última tendo Daniela Perreira de Carvalho como supervisora. No elenco, Elisa Lucinda (Ester), Ellen Oléria (Rute), Renata Celidonio (Anne), Gabriela Correa (Noiva Erina e Simone), Tainá Baldez (Noiva L e Elle) e Luiza Guimarães (Xena Charme, Noiva Safo, Lea Secret e Filipa). O espetáculo conta também com a ótima participação das instrumentistas Alana Alberg (baixo), Marlene de Souza Lima (guitarra), Nathália Reinehr (bateria) e Janá Sabino (teclado). 

Quando criou a Casa-Poema, Elisa Lucinda tinha, dentre outros objetivos, o de fazer com que seus alunos conseguissem dizer poesia sem ser chato. Aqui não é a poesia que está em causa, mas questões relativas a lésbicas, gays, bissexuais, trans e todas as variantes possíveis e imaginárias. Como vivemos uma época de brutal intolerância com relação a pessoas que dirigem seus afetos confrontando o que a moral e os bons costumes apregoam - em se tratando de Brasil, constitui macabro humor se falar em moral e bons costumes -, o texto poderia priorizar o panfletário, o que o faria enveredar para o campo das discussões exacerbadas e cujo resultado só contribuiria para afastar ainda mais os que defendem posições antagônicas.

Aqui, no entanto, dá-se rigorosamente o oposto. O texto não objetiva provar nada, não tenta legitimar nada, não investe de forma tácita contra aqueles que se apegam a valores jurássicos. Muito pelo contrário. Tudo se resume a uma trama que expõe, de forma ao mesmo tempo divertida e densa, variados conflitos decorrentes de múltiplos afetos. E essa exposição traz em seu cerne o que de mais precioso existe (ou deveria existir) no tocante ao humano: a liberdade. 

Se não somos livres para fazer nossas opções (sejam elas políticas ou sexuais, dentre muitas outras), se permitimos que a opressão nos domine e assim inviabilize a materialização de nossos anseios mais profundos, então não passamos de marionetes manipuladas pelos que detêm o poder e, queiramos ou não, acabamos contribuindo com nossa passividade para a perpetuação da violência e da intolerância que imperam no tempo em que vivemos. 

Em resumo: o que o ótimo texto de Sérgio Maggio nos propõe, em uma leitura mais ampla, é que se abram todos os armários e dele emerjam pessoas dispostas a lutar pelo legítimo direito de serem o que quiserem ser. E se eventualmente a luta parecer inglória, não custa nada lembrar que é impossível levar um barco sem temporais, e que o leme de nossas vidas está em nossas mãos e de ninguém mais. 

Tendo como espinha dorsal 22 canções de cantoras assumidamente lésbicas, dentre elas Simone, Adriana Calcanhoto, Mart' nália, Lecy Brandão, Sandra de Sá e Angela RoRo, o espetáculo consegue mesclá-las à narrativa de forma tão orgânica que o resultado quase me levou a crer - sei que não, obviamente - que as músicas haviam sido compostas simultaneamente à escrita. Sob todos os pontos de vista, uma montagem memorável, seja pelos pertinentes temas que aborda, seja pela forma como estão materializados na cena.   

Com relação ao elenco, poderia particularizar cada uma das performances. Mas as atrizes fazem tão bem seus personagens e é tamanha a força do conjunto, que opto por parabenizar a todas com o mesmo entusiasmo, a todas agradecendo o divertido e emocionante encontro que tivemos. E creio firmemente que todos os espectadores haverão de sentir o mesmo, pois não é comum, ao menos para mim, voltar pra casa impregnado do mais puro encantamento. Assim, só me resta implorar aos sempre caprichosos Deuses do Teatro que abençoem esta imperdível e mais do que oportuna empreitada teatral.

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de Luís Filipe de Lima (direção musical), Ana Paula Bouzas (direção de movimento), Aurélio de Simoni (iluminação), Carol Lobato (figurinos), Maria Carmen de Souza (cenografia), Luma Le Roy (visagismo), Sara Mariano (preparação vocal) e Sérgio Maggio e Ellen Oléria (roteiro musical).

L, O MUSICAL - Direção geral e dramaturgia de Sérgio Maggio. Com Elisa Lucinda, Ellen Oléria, Renata Celidonio, Gabriela Correa, Tainá Baldez e Luiza Guimarães. Teatro I do CCBB. Quarta a domingo, 19h.