terça-feira, 5 de setembro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Balé Ralé"

.........................................................................
Inesquecível encontro no Sergio Porto



Lionel Fischer



"Balé Ralé nos coloca diante de alguns dilemas morais, seja em nosso íntimo ou coletivo, justamente quando se torna necessário e urgente trazer à luz temas que têm estado nas capas dos jornais e que dizem respeito a todos, como desigualdade, o preconceito, a opressão, os muros políticos, sociais e simbólicos que se erguem cotidianamente. Os textos de Marcelino Freire dão continuidade à pesquisa da companhia na reflexão das questões da diversidade e seus reflexos sobre o homem contemporâneo, numa cena contundente sobre os limites do corpo, da sociedade e sua potência transformadora".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza as premissas essenciais da obra, resultante de textos de Marcelino Freire. Mais recente produção da Companhia Teatro de Extremos, "Balé Ralé" está em cartaz no Espaço Cultural Sergio Porto. Fabiano de Freitas assina a concepção e a direção, estando o elenco formado por Blackyva, Leonardo Corajo, Maurício Lima, Samuel Paes de Luna e Tatiana Henrique - também fazem parte do projeto Vilma Mello e Juracy de Oliveira, que não estavam em cena quando assisti o espetáculo. 

"Balé Ralé" exibe uma estrutura narrativa singular: não há uma história a ser contada e os personagens não dialogam entre si - ao menos no sentido convencional. O que existe são fragmentos, monólogos que abordam alguns temas como os mencionados no parágrafo inicial. E todos eles cumprem uma finalidade semelhante: a de nos mostrar, por um lado, os horrores da sociedade em que vivemos, e por outro, ainda que não explicitamente, nos imputar alguma responsabilidade pelo que está acontecendo. Vamos a alguns exemplos.

É possível que nenhum dos espectadores presentes na sessão que assisti tenha violentado uma mulher. No entanto, que atitude tomamos em face dos estupros que acontecem diariamente em nossa cidade? Um menino é abusado pelo pai no banheiro de sua casa: sabemos que abusos deste tipo ocorrem todos os dias. E o que fazemos quanto a isto? A miséria leva uma mulher a vender os filhos. Todos nós temos consciência da constância desta tragédia: mas será que basta ter consciência?

Em minha opinião, o que confere especial contundência a "Balé Ralé" não se limita à exposição de muitas e gravíssimas mazelas que assolam nossa cidade, mas sobretudo ao claro e virulento apelo que nos faz para que abandonemos nossa inércia, renunciemos à nossa indiferença e passemos a acreditar que tudo que acontece ao outro também nos diz respeito. E isso implica em agir, verbo que em nossa sociedade parece condenado à mais absoluta imobilidade.

Texto belíssimo, impregnado de um furor poético em tudo semelhante ao das grandes tempestades, "Balé Ralé" recebeu esplêndida versão cênica de Fabiano de Freitas, cabendo destacar a expressividade de suas marcações, seu domínio dos tempos rítmicos e sua atuação junto ao elenco. Como lhe disse após o espetáculo, pretendia avaliar detalhadamente o trabalho de cada intérprete. Mas acabei chegando à conclusão de que me tornaria repetitivo, pois contatei as mesmas virtudes em todos - excelente domínio vocal e corporal, fortíssima presença cênica e a consciência de que estão inseridos em um projeto de enorme relevância. Assim, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo, e a todos agradeço o inesquecível encontro que tivemos.

Com relação à equipe técnica, considero irretocáveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Marcia Rubin (direção de movimento), Renato Machado (iluminação), Gustavo Benjão (direção musical), Pedro Paulo de Souza e Evee Avila (cenografia), Luiza Fardin (figurinos) e Josef Chasilew (visagismo).

BALÉ RALÉ - Texto de Marcelino Freire. Concepção e direção de Fabiano de Freitas. Com a Companhia Teatro de Extremos. Espaço Cultural Sergio Porto. Sexta a segunda, 20h30.  

   


terça-feira, 29 de agosto de 2017


 
Hoje, 12:20
 
Queridos Todos.
​Fomos convidados para reinaugurar o Teatro lá do Planetário da Gávea, agora em Setembro.
Então, é nossa Missa que segue. Uma alegria.
Nos ajudem a espalhar a noticia aos nossos amigos claricianos,
e aos que ainda não são, compartilhando entre os seus?
Vamos lotar aquele Teatro. A partir do dia 01. Venham Todos. De novo.
Avise por aqui ou para espetaculomissaparaclarice@gmail.com e nós reservamos para você.

Grande beijo.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Guanabara Canibal"


...................................................
Pertinente alerta para os tempos atuais

Lionel Fischer



"Guanabara Canibal dá continuidade à investigação cênica e dramatúrgica da história da cidade do Rio de Janeiro, que teve início com o espetáculo Cara de Cavalo (2012), sobre a extinta favela do esqueleto, atual UERJ, nos anos 60; e seguiu com Caranguejo Overdrive (2105), sobre o antigo mangue que foi aterrado no final do século XIX, atual Praça XI. Agora o foco recai sobre a fundação da cidade, tendo como referência para a construção da dramaturgia a literatura quinhentista, que inclui relatos dos cronistas franceses Jean de Lery e André Thevet, que acompanharam a formação da colônia França-Antártica, no Rio de Janeiro, e o poema De GestisMendi de Saa (Feitos de Mem de Sá), do padre José de Anchieta, que narra a ofensiva portuguesa contra os tupinambás e a ocupação francesa da cidade".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto de "Guanabara Canibal", mais recente produção da Aquela Cia de Teatro. Em cartaz no Teatro III do CCBB, o espetáculo conta com direção de Marco André Nunes, estando a dramaturgia a cargo de Pedro Kosovski. No elenco, Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão. 

Como todos sabemos, quando alguém pretende cometer um crime toma no mínimo duas precauções: a escolha do melhor momento para perpetrá-lo e um cuidado extremo para não deixar qualquer pista incriminatória. No presente caso, os colonizadores portugueses seguiram à risca esta breve e sinistra cartilha: escolheram o momento quem lhes pareceu ideal para combater os franceses e as mais de oitenta aldeias indígenas que viviam no entorno da Baía da Guanabara. 

Após breve resistência, os franceses fugiram. Mas os índios resolveram lutar contra o inimigo comum, deixando de lado suas rivalidades. E foram dizimados, praticamente inviabilizando qualquer pista incriminatória - se poucos dos milhares de índios sobreviveram, quem haveria de levar a sério sua versão sobre a brutal carnificina? Quem haveria de se interessar sobre sua cultura se praticamente nenhum vestígio da mesma foi preservado? Sim, há relatos dos cronistas franceses, assim como o poema de José de Anchieta, mencionados no parágrafo inicial. Mas a voz indígena jamais se fez ouvir e o que prevaleceu, como sempre acontece, é a versão oficial dos que detêm o poder. 

Tais questões estão presentes no texto de Pedro Kosovski, cuja estrutura narrativa mescla passagens ritualísticas, informações históricas e momentos em que o tempo, propositadamente estendido pela direção, coloca o espectador em um estado de permanente perplexidade, por um lado, e de total desconforto por outro, como se em alguma medida nos fosse imputada uma parcela de responsabilidade não pelo que ocorreu no passado, evidentemente, mas por tudo aquilo que nossa omissão permite que se perpetue no presente - quantos de nós se preocupam verdadeiramente com nossos índios e com sua real inserção no contexto político e social do nosso país?   

Estamos diante de um texto que nos remete ao que já aconteceu, sem dúvida, mas cujo principal mérito é o de nos alertar para os tempos atuais. Afinal, se nos recusamos a pensar sobre o que fomos, nós o seremos sempre. Se não refletirmos sobre nosso passado, estaremos condenados a repeti-lo. E me parece que todos nós estamos fartos de repetições e ansiamos todos por novos caminhos, por um Brasil que priorize o entendimento e a fraternidade, que respeite as diferenças e as minorias, e exclua para sempre os que nada têm a oferecer a não ser seus espúrios e inaceitáveis interesses.

Acredito que tanto o texto de Pedro Kosovski, quanto a expressiva e potente direção de Marco André Nunes - a mesma potência e expressividade presentes na atuação de todo o elenco - estão impregnados de um misto de furor e esperança. E sendo esta, segundo dizem, a última que morre, não permitamos que isso aconteça.

No tocante à equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de Felipe Storino (direção musical), Renato Machado (iluminação), Marco André Nunes e Marcelo Marques (instalação cênica), Marcelo Marques (figurino) e JoseffCheslow (visagismo).

GUANABARA CANIBAL - Texto de Pedro Kosovski. Direção de Marco André Nunes. Com Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão. Teatro III do CCBB. Quarta a domingo, 19h30.   








terça-feira, 22 de agosto de 2017

2017 - FÓRUM DE AGOSTO


Prezados,
Retornamos ao Fórum de Psicanálise e Cinema nesse segundo semestre com o imperdível: CORTINA DE FUMAÇA (Smoke, 1995, 110 min.), do diretor Wayne Wang em parceria com o grande romancista Paul Auster, responsável também pelo roteiro, baseado em um conto de Natal, filme premiado em diversos festivais internacionais.
No dia 25, última sexta-feira do mês, às 18 h, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, analisaremos e discutiremos essa obra da arte cinematográfica, tanto pela  temática bem construída e interpretada, como pelo uso de metáforas que envolvem as relações inter-raciais, problemáticas familiares e envolvimentos emocionais de memórias sofridas que podem mudar a perspectiva dos principais personagens, obra que mantém a atualidade e o vigor narrativo.
Como sempre, aguardamos todos vocês para mais um debate e contamos com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico,
Um abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 25 DE AGOSTO DE 2017.
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM. 
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. EM 2016, A SPRJ, CELEBROU OS 10 ANOS DO FÓRUM E A PARCERIA COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

PENSAR O TEATRO NO ESPAÇO DA ARTE


                                                                         DINA MOSCOVICI
                                                                                                                                                                                    Abril, 2008-04-15


Dá o terceiro sinal.  O escuro se faz.  O público silencia e dirige sua atenção para o palco.  Uma tênue luz começa a iluminar a cena, delimitando o contorno onde a ação deverá se dar. Aparentemente, ainda nada acontece.  Há pura espera.  Mas, nossas projeções imaginárias começam a povoar o espaço.  No vazio, as expectativas vão se acentuando.  Talvez, quem sabe, a espera nos cause alguma inquietação.  Movemos-nos, tossimos. Certa angústia, que tentamos dissimular, nos acomodando nas poltronas, é contagiante, repercute na sala.  O silêncio perturba.  É demasiado barulhento.

Felizmente, algo acontece.  Um ator entra em cena.  Sai da sombra e caminha da lateral esquerda até o centro do palco.  Também ele parece perdido, chegado a um lugar estranho que examina olhando em todas as direções. Parece querer marcar território.  Subitamente, a sensação de algum ruído.  Ele escuta no silêncio porque depois de uma pequena hesitação vira-se abruptamente para o fundo do cenário.  É de lá que vem o perigo.  Somos nós e ele, atentos, com a respiração em suspenso.  Foi apenas um susto porque o ator vira-se para o público e nos faz respirar.  Agora, frontalmente, dirige o olhar para algum lugar distante, no vazio. Acena.  Seguramente vê algo.  Daqui a pouco saberemos o que, qualquer coisa que nos assegure na compreensão de alguma realidade.  É sempre assim, desde sempre, esta inquietação na procura de alguma resposta tranquilizadora, apaziguadora de nossas inquietações.

Sabemos que a realidade nunca se apresenta como algo homogêneo e linear, nem dá respostas certas e definitivas.  Em cada época, a cada momento, somos sempre atravessados por novos desafios e desgarramentos que nos remetem à repetição das mesmas perguntas fundamentais sobre nos mesmos, sobre a natureza, sobre a dicotomia com a natureza e sobre o sentido da própria existência. 

Novos planos de imanência se desdobram com novos paradigmas que exigem novo esforço para encontrar novas provisórias respostas.  Mas, nenhuma vai conseguir apaziguar a turbulência avassaladora que nos invade ao querer desvendar o nosso inexplicável existir entre as coisas. Estaremos sempre no vazio do palco, na espera do acontecimento. 

Quem sabe, aparecerá um outro, um outro ator, ou outros, que num jogo de espelhos nos decifrem os porquês de estarmos na espera de respostas.  Condenados a pensar o mundo e a nós mesmos, dilacerados entre o ser mais um ente entre as coisas, estamos permanentemente criando uma espacialidade, um habitat perambulante aonde gestus irão deixando marcas, delimitando territórios.

No princípio, no mais arcaico, um plano mítico, no qual o homem tratava de apropriar-se do mundo, antigas teogonias convivem com os homens, interferindo em seus destinos.  Logo, do discurso mítico, pré-filosófico, um longo caminhar para uma ordenação racional do mundo.  A Filosofia conceituando o intrincado relacionar do homem com a natureza.  

Por outro lado, um universo sensível tratando de possibilitar o desvendar de verdades oraculares, em regiões ontológicas onde só o artista é capaz de tornar visível o invisível.  Aquilo que ele experimenta como sensação toma forma.  É expressividade tornada matéria, num visível que é pura expressividade.  Porque a arte expressa, não representa. 

O ator estará no palco com todo seu corpo, mas também com algo mais que seu corpo. Ele expressa aquilo que viu, mas sua visão inclui todos os sentidos e não apenas o olhar. Assim como na vida: estamos sempre imersos numa visibilidade múltipla, numa transversibilidade dos sentidos, não apenas táteis, visuais, etc., mas de todos os sentidos ao mesmo tempo.  Somos todo o tempo, um corpo que se expressa, um corpo de sensações capaz de ultrapassar os limites de seu próprio contorno. Um corpo que sente e não um corpo que funciona sob uma prévia organização aonde apenas se chegaria a uma simples representação.  Um corpo de intensidades,  no embate entre o aprisionamento e a liberação  do organismo.

Talvez, quem sabe, quando Artaud, em sua obra teórica, se referia ao ator,  estivesse, justamente, apregoando um mais além de uma simples presença corporal, onde  ainda não existissem as intensidades, os impulsos e os afetos. Porque um corpo em que cada órgão tivesse, nele mesmo, apenas, já uma função previamente determinada, seria apenas um corpo empobrecido, sabotado, afastado de suas possibilidades. Incapaz de doar ou de acolher o que a ele se oferece como possibilidade de um porvir criativo.
  
Pensemos o teatro como captação dos conflitos existentes na realidade. Conflitos entre homens e deuses; entre homem e Deus ou entre homens com outros homens. Ou, como no Teatro do Absurdo, a captação de conflitos internos, insolúveis, do homem consigo mesmo.  A cena teatral seria mais uma das maneiras de eternizar o tempo vivido, de possibilitar os encontros e desencontros. De eternizar o efêmero como duração.  De fazer vir à luz alguma coisa que na vida foi apenas pressentida.

A visão de um acontecer às cinco horas da tarde, aparentemente, pertence apenas às cinco horas da tarde, mas, na cena teatral ela pode se eternizar.  Assim como num poema – ‘eram las cinco en punto de la tarde’-, ou como num quadro.  O poeta ou o pintor ao capturar um momento, o retirando do tempo vivido e colocando-o no poema ou na tela, lhe dão eternidade no tempo. Mas, não será esta afirmação apenas uma falácia? 

Aparentemente, o tempo do cotidiano aparece como se fosse sempre atravessado por clichês. O artista teria o poder de transformar estes clichês, estes momentos efêmeros, em singulares e eternos. Mais ainda, na obra de arte estes momentos são sempre os mesmos e ao mesmo tempo diferentes deles mesmos.  Há sempre, na obra de arte, um algo que é sempre igual e ao mesmo tempo diferente de si mesmo.  Uma transitorialidade, um nomadismo que abre mundos para aquele que aprecia a obra lançando-o sempre para mais além da resposta, para uma sempre nova interrogação, num “motus perpetuo”,  sempre chegada e fim de caminho.  Uma cartografia de espaços imaginários que emana da geografia de corpos transgressores que desafiam e duelam com o mundo da razão.
      
No palco, esta geografia corporal se desenha em cartografias com linhas de fuga apontando para múltiplas direções que vão mais além dos limites da cena, denunciando permanentemente que por traz de uma realidade tácita, patente, existem outras latentes, inexpurgáveis.  Há sempre uma abertura aberta para uma nova abertura, um novo conflito que remete a outros conflitos.
     
No Teatro, tudo aquilo que acontece na cena é sempre transitório.  Os personagens entram em conflito na luta pela realização de seus desejos. Desejar é estar na falta, lançar-se na tarefa de possuir o objeto desejado.  Mas, satisfazer o desejo, possuir o objeto desejado, pressupõe, ao mesmo tempo “consumir”, fazer desaparecer o objeto desejado. Mas, o objeto desejado vai reaparecer quando o novamente a sua falta se fizer presente, na presença de sua ausência, como negação. 

Assim, todo desejo se anunciará sempre como desejo antecipado de outro desejo. E, é nesse embate entre diferentes desejos dos diferentes personagens que a obra teatral vai evoluindo no tecido dramático de sucessivos instantes presentes e intensivos. O acontecer no acontecer vai determinar a evolução do drama cênico definindo-o como uma comédia, um drama ou uma tragédia.








         -------------------------------------------------------------------




















terça-feira, 8 de agosto de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Agosto"

..................................................................................
Excelente montagem de um texto belíssimo



Lionel Fischer



Tudo se passa em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Poeta e alcoólatra, Beverly é casado com Violet, que tem um câncer na boca e é viciada em remédios. Na primeira cena, vemos Beverly contratando uma empregada para ajudar Violet - trata-se de uma índia cheyenne chamada Johnna, que logo passa a sofrer ataques racistas de Violet. Essa contratação, aparentemente bem intencionada, e sem deixar de sê-lo, na verdade oculta o que dispara a trama: Beverly desaparece e nunca mais retorna - acaba sendo descoberta uma carta sua revelando que vai se suicidar.

Em vista desse desaparecimento, a família se reúne. Violet e Beverly tem três filhas. Barbara está em processo de divórcio com Bill, e tem um relacionamento conturbado com a filha adolescente Jean; Karen está noiva daquele que será seu terceiro marido, Steve; Ivy, que ainda vive na casa dos pais, esconde um relacionamento com o primo Charles, que mais tarde se descobrirá que é mais do que seu primo.

Caso estivéssemos diante de uma família normal, o desaparecimento de Beverly geraria uma inevitável angústia. Mas como não existem famílias normais, o sumiço do patriarca e a posterior constatação de que se suicidara (ainda que seu corpo nunca tenha sido encontrado), faz aflorar uma série de graves conflitos, alguns previsíveis, mas outros totalmente inesperados.

Eis, em resumo, o enredo de "Agosto", peça do norte-americano Tracy Letts que ganhou os prêmios Tony (melhor texto) e Pulitzer (melhor drama) e que foi levado às telas com o título "Álbum de Família", tendo como protagonistas Meryl Streep (Violet) e Julia Roberts (Barbara).

Em cartaz no Oi Futuro Flamengo, a montagem conta com adaptação e direção de André Paes Leme, estando o elenco formado por Guida Vianna (Violet), Letícia Isnard (Barbara), Alexandre Dantas (Steve), Claudia Ventura (Karen), Claudio Mendes (Charlie), Eliane Costa (MettieFae), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly/Bill), Julia Schaeffer (Johnna), Lorena Comparato (Jean) e Marianna Mac Niven (Ivy).

Como não conhecia o texto (e tampouco vi o filme), não tenho como avaliar a adaptação feita por André Paes Leme. Seja como for, e antes de mais nada, quero manifestar minha enorme satisfação por ter entrado em contato com uma obra contemporânea de grande densidade, plena de conflitos exasperantes e viscerais, sendo os mesmos materializados por personagens magnificamente construídos e que contracenam através de diálogos da mais alta teatralidade. 

E mais: a peça em questão, ao contrário de tantas que se inserem na chamada Moderna Dramaturgia (não tenho nada contra a dita Moderna Dramaturgia, desde que de qualidade), não impõe ao espectador hercúleos esforços de compreensão, não o coloca diante de contextos que podem ter infinitos significados, cabendo a cada um escolher o seu - esta é uma das principais características das chamadas Obras Abertas, que, muitas vezes, são tão abertas que acabam não querendo dizer nada, pelo simples fato de que o autor também não sabia exatamente o que pretendia. Isto posto, e imaginando já ter enaltecido suficientemente o texto, vamos ao espetáculo.

Como a ação se passa em vários cômodos da casa, e sendo impossível materializá-la em um palco de pequenas dimensões, André Paes Leme fez duas opções. A primeira: inicialmente a personagem Johnna atua como narradora, especificando a geografia local. A segunda: algumas cenas, que acontecem em espaços diferentes, são exibidas ao mesmo tempo, sem que isso acarrete nenhum transtorno no tocante à compreensão. Afora isso, cabe ressaltar a expressividade das marcações, a precisão dos tempos rítmicos e a capacidade do encenador de extrair ótimas atuações de todo o elenco.

Na pele de Violet, Guida Vianna, que está completando 40 anos de carreira, exibe performance magnífica encarnando uma personagem dificílima, pois além do drama que a acomete (o câncer) e dos remédios que têm que tomar, Violet sugere uma mulher em vias de enlouquecer, e que portanto demanda cuidados especiais. No entanto, a partir de um certo ponto, se percebe que ela é a mais lúcida da família, e que se cuidados especiais se fazem necessários, estes dizem respeito muito mais aos outros do que a ela própria. Sob todos os aspectos, um trabalho memorável e inesquecível.

A mesma eficiência se faz presente na performance de Letícia Isnard, atriz cujo imenso talento lhe permite transitar com o mesmo brilho tanto pela comédia como pelo drama. Aqui, evidentemente, o drama predomina, e Letícia extrai tudo que é possível de uma mulher que afronta permanentemente o ex-marido, ainda que o ame, e não hesita em exercer sua liderança com uma agressividade que sugere alguém capaz de chegar a atos extremados - ainda assim, a atriz também consegue valorizar toda a fragilidade e desamparo que a personagem se empenha tanto em ocultar. 

Alexandre Dantas explora com propriedade a canalhice inerente a Steve, que mesmo diante do grave contexto não hesita em assediar a adolescente Jean. Claudia Ventura está irrepreensível como Karen, mulher que, em função de um próximo casamento, aceita toda a já mencionada canalhice de Steve, além de valorizar ao máximo a passagem em que questiona os afetos familiares. Claudio Mendes faz com total segurança o apaziguador Charlie, cabendo a Eliane Costa defender com vigor uma personagem de intolerável capacidade desagregadora. Guilherme Siman valoriza com sensibilidade o tímido Charlie. 

Como de hábito, Isaac Bernat demonstra seu grande talento, seja na breve participação como Beverly, seja vivendo Bill, personagem que passa grande parte da peça tentando sofrear a agressividade da ex-esposa Barbara e empreendendo comoventes esforços para ao menos amenizar a gravidade do contexto. Julia Schaeffer exibe impecável atuação como Johnna, materializando tanto a doçura quanto a firmeza da personagem. Lorena Comparato faz muito bem a revoltada e agressiva adolescente Jean, a mesma eficiência presente na performance de Marianna Mac Niven (Ivy) - só me permito sugerir à atriz que se empenhe ao máximo em conferir maior potência e alcance para sua voz, o que certamente lhe permitirá trabalhar seus textos com maiores nuances. 

No tocante à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Carlos Alberto Nunes (cenografia), Patrícia Muniz (figurino), Renato Machado (iluminação), Ricco Vianna (música) e Guilherme Siman (tradução). 

AGOSTO - Texto de Tracy Letts. Direção e adaptação de André Paes Leme. Com Guida Vianna, Letícia Isnard, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Claudio Mendes, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato e Marianna Mac Niven. Oi Futuro Flamengo. Quinta a domingo, 20h. 
















domingo, 6 de agosto de 2017

FÓRUM CARIOCA DE CULTURA - 2017 Ciclo "Mulheres na Literatura" 
"Transparências de uma escritora universal" Adélia Prado 
"Adélia Prado (1935) é uma escritora e poetisa brasileira. Recebeu da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Jabuti de Literatura, com o livro "Coração Disparado", escrito em 1978. Mineira de Divinópolis, sua obra recria numa linguagem despojada e direta, a vida e as preocupações dos personagens do interior mineiro."
Palestra a cargo do escritor Rogério Tavares, da Academia Mineira de Letras. Leitura de poemas pela atriz Rosamaria Murtinho.
 Ambos serão apresentados, respectivamente, pelos Acadêmicos Antônio Carlos Secchin e Sergio Fonta

Segunda, dia 07 de agosto, às 17:30h 
Convite em anexo
Rua Teixeira de Freitas nº 5, sala 306 - Prédio do IHGB
Secretaria 
www.academiacariocadeletras.org.br
facebook.com/academiacariocadeletras/

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Caríssimos,
Seguem os títulos escolhidos para compor nosso painel do segundo semestre do FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA, cuja estreia ocorrerá no dia 25 de agosto, para o qual esperamos todos vocês para analisarmos e debatermos os temas propostos.
Contando, como sempre, com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico, um grande abraço e até lá, Ana Lúcia e Neilton.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC/ESCOLA DE TEATRO) &
 SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
PROGRAMAÇÃO DE 2017-2
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18 h ÀS 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO.
FILMES ANALISADOS PELO PSICANALISTA: DR. NEILTON SILVA
E PELA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO: DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
25/08 – CORTINA DE FUMAÇA (Smoke)
DIREÇÃO: WAYNE WANG, 1995, 122 min.
Com roteiro de Paul Auster, o cotidiano de uma tabacaria cujo dono, há 13 anos, tira fotos de sua loja, diariamente, às oito da manhã, pelo lado de fora e por onde circulam tipos bem diferentes, como Paul Benjamin, um escritor, ao olhar as fotos se emociona, ao ver sua falecida esposa, que estava grávida de cinco meses e morreu em um tiroteio.

29/09 – A FAMÍLIA BÉLIER (La famille Bélier)

DIREÇÃO: ERIC LARTIGAU2014, 104 min. 
Na família Bélier todos são surdos - exceto Paula, de 16 anos. Ela é uma intérprete indispensável de seus pais, ajudando no funcionamento da fazenda da família. Um dia, seu professor de música descobre seu dom para cantar e ela decide se preparar para o concurso da Radio France. Uma escolha que representa ficar longe da família e entrar na vida adulta.
27/10 – ONDAS DO DESTINO (Breaking the Waves)
DIREÇÃO: LARS VON TRIER, 1997, 158 min.
No norte da Escócia, uma jovem mulher se apaixona e se casa com um dinamarquês que trabalha em uma plataforma de petróleo. Quando ele retorna ao seu serviço e sofre um acidente ao quebrar seu pescoço, torna-se incapacitado para o resto da vida. Nesta situação, ele pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações.
24/11 – TRUMAN (Truman)
DIREÇÃO: CESC GAY, 2015, 108 min.
Dois amigos de infância, separados por um oceano, se encontram depois de muitos anos. Um ator argentino muito doente, radicado em Madrid, e um professor universitário fixado no Canada. Eles passam uns dias juntos, lembrando os velhos tempos e a grande amizade que se manteve por anos. Esse reencontro pode ser também o último adeus.
SERVIÇO: SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO. FILME: 18H; DEBATE: 20H
PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO PELOS PSICANALISTAS DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON SILVA. A PARTIR DE 2004, PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES.  COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ MAIS DE ONZE ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Estes fantasmas"

.............................................................................
Comédia dramática em excelente versão

Lionel Fischer


"Pasquale muda-se com sua esposa para um antigo casarão que há anos é tido como mal assombrado. Mas o que se sucede é uma série de acontecimentos que nada têm a ver com seres do outro mundo. No entanto, ele prefere acreditar que tudo o que acontece é obra do além, salva a si mesmo de sua iminente tragédia, porque se permite acreditar que o amante de sua mulher é um fantasma que assombra sua nova casa e que lhe dá dinheiro de modo benevolente".

Extraído do excelente release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "Estes fantasmas" (Sesc Ginástico), de autoria do dramaturgo italiano Eduardo De Filippo (1900-1984). A montagem da Trupe Fabulosa leva a assinatura de Sergio Módena, estando o elenco formado por Thelmo Fernandes, Alexandre Lino, Ana Velloso, Celso André, Gustavo Wabner, Rodrigo Savadoretti e Stela Freitas - esta última participa como atriz convidada.

Escrita em 1946, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, a peça se inicia com uma constatação: Pasquale Lojacono é um homem financeiramente arruinado, mas que acredita que poderá se reerguer se conseguir alugar as dezenas de cômodos do dito casarão, assim convertendo-o em um hotel ou pensão. Ou seja: Pasquale é um homem que ainda não se entregou e se mostra disposto a enfrentar bravamente as adversidades. Estaríamos, portanto, na iminência de assistir a um drama. 

No entanto, esta impressão é parcialmente desmentida a partir do primeiro encontro de Pasquale com Rafaele, porteiro do estabelecimento. Além de enfatizar que o castelo é realmente assombrado, Rafaele enumera uma série de bizarras tarefas que Pasquale terá que cumprir diariamente, como a de aparecer em todas as varandas, cantar a plenos pulmões e acenar das janelas para que os vizinhos acreditem que ali vivem pessoas e não fantasmas. Trata-se, evidentemente, de uma cômica circunstância.

Em vista disso, caberia ao autor - um dos maiores dramaturgos do século XX - conduzir a trama mesclando comicidade e drama, investindo na possibilidade do estabelecimento de um jogo teatral entre realidade e ficção, uma constante em sua obra. E ele certamente o faz. No entanto, e mesmo correndo o risco de ser apedrejado (como a adúltera da Bíblia) pelo elenco, produção e toda a equipe técnica do projeto, não consegui me envolver com o espetáculo - e não por culpa do espetáculo - como imaginei. E pela razão que se segue.

Embora tenha ficado perfeitamente claro para mim que um dos temas centrais da peça é o desejo humano de se reinventar, e quando a realidade se torna insuportável ainda assim tenta-se resistir apelando para forças sobrenaturais na esperança de uma hipotética salvação, creio que esta pertinência temática perde parte de sua contundência porque as passagens humorísticas e dramáticas são muitas vezes trabalhadas em blocos muito extensos. Vamos a dois exemplos.

A cena inicial entre Pasquale e Rafaele é extensa, mas nem por isso deixa de ser engraçadíssima. Na passagem em que Pasquale tenta desesperadamente convencer a esposa Maria de que a ama e que ambos podem seguir juntos, e é vigorosamente contestado, novamente uma cena extensa, mas plena de dramaticidade e maravilhosamente construída. Ou seja: acredito que a eficácia do texto seria ainda maior se a alternância entre os climas emocionais em jogo se desse com maior freqüência, o que implicaria na materialização de cenas mais curtas.

Seja como for, não há dúvida de que Eduardo De Filippo exibe aqui muitos de seus mais do que reconhecidos méritos, dentre eles o de unir teatro popular com uma visão socialmente engajada do mundo, como destaca o diretor Sergio Módena no programa. E aproveitando que acabo de citar o encenador, quero deixar clara minha admiração por este trabalho. Impondo à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, Módena consegue valorizar, em igual medida e com o mesmo êxito, tanto as passagens mais engraçadas quanto aquelas em que a dramaticidade predomina, valendo-se invariavelmente de marcações imprevistas e criativas. Além disso, o encenador consegue, como de hábito, extrair ótimas atuações do elenco.

Na pele de Pasquale, Thelmo Fernandes demonstra, uma vez mais, sua notável capacidade de transitar com a mesma eficiência pela comédia e pelo drama. Possuidor de ótima voz, grande carisma e forte presença cênica, Fernandes exibe aqui uma das melhores performances da atual temporada. Gustavo Wabner convence plenamente como Alfredo, amante de Maria, sendo esta interpretada com grande emotividade por Ana Velloso. Comediante por excelência, Alexandre Lino está impagável vivendo o ladino Porteiro, com Celso Andre (outro excelente comediante) materializando com extrema firmeza um personagem marcado por total seriedade. Rodrigo Salvadoretti se mostra eficiente em suas breves participações. Com relação a Stela Freitas, é maravilhoso revê-la em cena, ainda que em breve participação como Armida, esposa de Alfredo. E faço absoluta questão de ressaltar meu assombro ante sua relativa ausência de nossos palcos, já que se trata de uma das melhores atrizes do país.  

No tocante à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta oportuna empreitada teatral - Doris Rollemberg (cenografia), Mauro Leite (figurinos), Tomás Ribas (iluminação), Marcelo Alonso Neves (direção musical), Derô Martin (adereços), Guilherme Camilo (visagismo) e Sergio Módena (tradução e adaptação)

ESTES FANTASMAS - Texto de Eduardo de Filippo. Direção de Sergio Módena. Com Thelmo Fernandes, Gustavo Wabner, Alexandre Lino, Ana Velloso, Celso Andre, Rodrigo Salvadoretti e Stela Freitas. Sesc Ginástico. Quinta a sábado, 19h. Domingo, 18h.   








quarta-feira, 26 de julho de 2017

 

Esta mensagem foi enviada com prioridade alta.
Teatro/CRÍTICA

"Dois amores e um bicho"

...........................................................................
Dilacerado brado contra a intolerância

Lionel Fischer


"São três os personagens: pai, mãe e filha. Uma visita ao zoológico, onde a filha do casal trabalha, desencadeia uma história enterrada há quinze anos, quando o pai matou seu cachorro a pontapés por considerá-lo homossexual. Ao passarem pela jaula do orangotango, isolado dos outros animais por ter molestado outro macaco, a família relembra esse episódio traumático do passado. A lembrança desencadeia uma série de conflitos familiares, deixando manifestar o ódio cotidiano, intolerância generalizada, o fascismo e a animalidade que fazem parte do homem contemporâneo, transformando o zoológico cênico proposto pelo autor em uma metáfora de nossa própria sociedade". 

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "Dois amores e um bicho", do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott. Em cartaz na Sala Multiuso do Sesc Copacabana, a montagem da Notória Companhia de Teatro leva a assinatura de Danielle Martins de Farias, estando o elenco composto por Adriana Seiffert (Mãe), Lucas Gouvêa (Pai) e Julie Wein (Filha) - José Karini está no elenco como stand in de Gouvêa, e foi com ele que assisti o espetáculo.

Como explicitado no parágrafo inicial, uma prosaica visita ao zoológico onde Julie trabalha como veterinária desenterra conflitos supostamente sepultados no passado. De acordo com as normas do zoológico, se um animal molesta outros deve ser isolado. No presente caso, o Pai não chegou a molestar ninguém, mas sentiu-se ultrajado com a possível homossexualidade de seu cachorro e então matou-o a pontapés, ficando detido por 45 dias. 

Pois bem: e se, ao invés de seu cachorro, o pai descobrisse, por exemplo, que sua filha era homossexual? Será que também a mataria a pontapés? Isso jamais poderemos saber, mas certamente a bárbara violência cometida contra o animal traz embutida uma das mais terríveis mazelas que assolam a humanidade desde sempre, e mais ainda nos tempos atuais: a intolerância.

Diante do ocorrido, alguém poderia ser levado a crer que, ao matar seu cachorro homossexual, o pai poderia ter sido movido por um impulso inconsciente cujo objetivo seria o de matar sua própria e latente homossexualidade. Mas, não sendo este o caso, a que atribuir uma atitude tão descabida, perpetrada por um homem até então considerado normal? E aqui reside, em minha opinião, o cerne da questão.

Exceção feita a casos evidentemente patológicos, todos nós acreditamos piamente em nossa própria normalidade, e portanto não nos julgamos capazes de cometer ações que entrem em frontal desacordo com as normas que regem a sociedade em que estamos inseridos. Mas será que isso constitui realmente uma verdade? Ou será que, dependendo de uma ou mais circunstâncias específicas, todos nós também sejamos capazes de explicitar uma intolerância até então insuspeitada?

Particularmente, acredito que sim. E nisto reside o alcance da peça, pois do contrário tudo se limitaria à exposição de um caso específico, inerente a um homem subitamente tomado por um bizarro e injustificado furor homicida. Neste sentido, suponho que o objetivo do autor tenha sido o de, por um lado, manifestar seu repúdio contra qualquer forma de intolerância, e, por outro, lançar uma espécie de alerta a todos nós, posto que somos constituídos de tudo que é inerente ao humano, seja para o bem ou para o mal. E se nossas escolhas nos parecem corretas, isso não significa que outras também não o sejam, e aprender a lidar com as diferenças é essencial para o estabelecimento de uma fraterna convivência entre os homens. 

Com relação ao espetáculo, Danielle Martins de Farias impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Desde o início, e ao longo de toda a montagem, as marcações traduzem de forma altamente expressiva as tensões entre os personagens, aí incluindo-se as passagens em que eles se dirigem diretamente ao público. Outro ponto extremamente positivo a destacar é o vigor com que o texto é proferido, assim como a intensidade rítmica, fatores que contribuem decisivamente para manter a plateia em um estado de tensão semelhante ao dos personagens. Tais virtudes, naturalmente, têm que ser compartilhadas com o elenco, cuja atuação irretocável está à altura deste espetáculo que, sem a menor dúvida, se insere entre os melhores da atual temporada.

Na pele do Pai, José Karini exibe a melhor atuação de sua carreira, conseguindo valorizar ao máximo todas as nuances de uma personalidade dilacerada por suas próprias contradições. O mesmo se aplica a Adriana Seiffert, impecável tanto nas passagens mais agressivas quanto naquela em que sofre brutal agressão do marido. Quanto a Julie Wein, suas virtudes enquanto instrumentista (toca piano e violoncelo, além de cantar) se equivalem à sua performance, impregnada de dor, perplexidade e ferrenha determinação em esclarecer o sombrio episódio do passado. Aos três, portanto, agradeço o maravilhoso encontro que tivemos. 

Na equipe técnica, Felipe Habib responde por ótima direção musical, essencial para o fortalecimentos dos múltiplos climas emocionais em jogo, o mesmo aplicando-se à soturna iluminação de Renato Machado, estruturada a partir de contrastes de claro/escuro. Outra contribuição notável diz respeito à cenografia de André Sanches, que, basicamente composta de cubos cinzas e gaiolas vazias, estabelece sensível paralelo entre uma jaula e o apartamento da família. Cabe também destacar os excelentes figurinos de Raquel Theo e a magnífica direção de movimento de Toni Rodrigues.

DOIS AMORES E UM BICHO - Texto de Gustavo Ott. Direção de Danielle Martins de Farias. Com Adriana Seiffert, José Karini e Julie Wein. Sala Multiuso do Sesc Copacabana. Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.