sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Mais respeito que sou tua mãe!"


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Humor desvairado no Leblon


Lionel Fischer


Embora tenha plena consciência de que conselhos são inúteis, já que ninguém os segue, ainda assim darei um agora: os puritanos de plantão devem passar ao largo da presente montagem. Em caso contrário, correm o sério risco de deixar o teatro, como dizia Nelson Rodrigues, com "os brios mais eriçados que as cerdas bravas do javali". E isto por uma questão muito simples, de natureza semântica: o vocabulário utilizado pelos personagens provavelmente chocará ouvidos, digamos, muito sensíveis; ou, para ser mais objetivo, pessoas cuja irremediável hipocrisia e falso verniz adotarão ares ofendidos e irão para suas casas praguejando como viúvas machadianas.

No entanto, cabe registrar o seguinte: se os personagens falam uma inimaginável quantidade de palavrões, assim como lançam mão de expressões inegavelmente chulas, tanto os palavrões como as tais expressões estão em perfeita sintonia com o contexto, já que estamos diante de um texto que gira em torno de uma família completamente desvairada, composta por pessoas à margem dos padrões convencionais de comportamento e que, em vista disso, só seriam críveis se agissem e se expressassem da forma como o fazem.

Isto posto, vamos ao que interessa. A partir do texto original de Hernán Casciari (não sei se uma peça, conto, novela etc.), Antônio Gasalla criou uma versão teatral, que agora chega ao público carioca em nova versão, desta vez assinada por Miguel Falabella, também responsável pela direção. Em cartaz no Teatro do Leblon, "Mais respeito que sou tua mãe!" tem elenco formado por Claudia Jimenez (Nalva), Ernani Moraes (Jorge, seu marido), Sr. Jacinto (Henrique Oscar, pai de Jorge), Frank Borges (Jair), Sara Freitas (Monique) e Gabriel Borges (Cajá) - filhos do casal - e Séfora Rangel (Suzana e Seila, personagens episódicos).

Como já foi dito acima, toda a narrativa gira em torno de uma família completamente desvairada, capitaneada por Nalva. Mulher de humor ácido e crítico, impiedosa e terna, romântica e nostálgica, ela estabelece hilariantes e imprevistas relações com os membros de sua família, ao mesmo tempo em que comenta os fatos que vivencia com a platéia. E o contexto é realmente delirante: um dos filhos de Nalva revela-se gay, sua filha evidencia inegável vocação para a prostituição, seu outro filho é um completo debilóide e o marido, um troglodita cuja única paixão é ser vascaíno. Finalmente, temos um sogro cujo passatempo predileto é plantar maconha no jardim de Nalva. Mas em meio ao desvairado caos que marca o cotidiano da família, ainda assim percebe-se que a mesma sobrevive e, numa certa medida, consegue equacionar seus bizarros conflitos.

Com relação ao espetáculo, Miguel Falabella impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o texto: debochada, eletrizante, caótica, não isenta de elementos operísticos e, sobretudo, muito engraçada - afora o fato de investir corajosamente numa linha que, muito provavelmente, outros encenadores relutariam em adotar, sob o argumento de que poderiam causar algum (ou total) desconforto na platéia.

Por outro lado, torna-se imperioso reconhecer que muito do sucesso desta curiosa empreitada teatral se deve à presença de Claudia Jimenez. Comediante por excelência, capaz de gerar gargalhadas com um leve meneio de cabeça ou com uma imprevista pausa, a atriz domina a cena por completo, ainda que muito bem coadjuvada sobretudo pelos experientes Ernani Moraes e Henrique César, excelentes atores, com vastíssima experiência, e que extraem de seus personagens tudo que eles têm a oferecer. Quanto aos demais, todos exibem atuações eficientes, contribuindo para a harmonia - se é que esta palavra faz aqui algum sentido - do todo.

Na equipe técnica, José Dias assina uma cenografia perfeitamente adequada ao contexto, sendo excelentes os figurinos de Sônia Soares. Carlos Lafert responde por uma iluminação correta, a mesma correção presente na trilha sonora de Leandro Lapagesse.

MAIS RESPEITO QUE SOU TUA MÃE! -Texto e direção de Miguel Falabella. Com Claudia Jimenez, Ernani Moraes, Henrique César, Frank Borges, Sara Freitas, Gabriel Borges e Séfora Rangel. Teatro do Leblon (Sala Marília Pêra). Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h..

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